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11.10.04

SONHOS PROIBIDOS 

Foi há pouco mais de um ano...um ano que "eliminaram" a Íntima Fracção do éter.
Um ano...
Um ano em que aconteceu muita coisa (mais as coisas que nunca deveriam ter acontecido).
Um ano de angústias (muitas)
Um ano de alegrias (poucas)
Um ano sem a ponte sobre a água tumultuosa (... e quanto tumultuosa)
Um ano de esperanças (ALLÔ!!! ESPERANÇA... AINDA ESTÁS AÍ?)

Não existe realidade alguma que não tenha partido de uma fantasia. Sem fantasia não se pode projectar a realidade e assim o futuro.
Precisamos do sonho. A IF desenvolvia a nossa capacidade onírica. Proibem-nos o direito ao sonho.

Haverá alguém que tenha ganho com o desaparecimento da Íntima Fracção?
Perderam todos!
Todos!
Os que já eram ouvintes (e são tantos)
Os que sempre foram (ainda eram mais)
Os que ainda iriam ser (mais alguns seriam de certeza)
Perdeu a TSF (em particular)
Perdeu a rádio em Portugal (em geral)
Perdem todas as rádios (as que não conseguem -ou não querem- avaliar a importância de ter um programa de rádio com a IF).

T.E. Lawrence (em "Os Sete Pilares Da Sabedoria") diz que os homens que sonham acordados são perigosos, porque não precisam de acordar para desistirem dos sonhos que tiveram.
É isso que temem os que não sonham...a capacidade onírica e empreendedora das mentes sonhadoras. Então o que fazem para se defenderem defendendo a sua própria mediocridade?
Proibe-se "os outros" de sonhar.

Seria todavia o escritor Salman Rusdhie a descrever da melhor maneira esta auto-anulação humana no livro "O Chão Que Ela Pisa".
Escreve Rusdhie:

"Durante muito tempo, acreditei que em todas as gerações há umas tantas almas, chamemo-lhes felizes ou desgraçadas, que não nasceram para se integrarem, que vieram a este mundo meio separadas, que pode até haver milhões, biliões de almas assim, talvez tanto de integrados como de não integrados; que, em suma, esse fenómeno pode ser uma manifestação da natureza humana tão "natural" como o seu oposto, mas que ao longo da história dos homens tem sido frustrado por falta de oportunidades. E não só: porque as pessoas que dão mais valor à estabilidade e que temem tudo o que é transitório, incerto, mutável, construíram um poderoso sistema de estigmas e tabus contra o desenraizamento como força desestabilizadora e anti-social e assim conformamo-nos a maior parte das vezes, fingimo-nos motivados por lealdades e solidariedades que realmente não sentimos, escondemos as nossas identidades secretas sob a pele falsa das identidades marcadas com o selo da aprovação. Mas a verdade escapa-se nos nossos sonhos; sozinhos na cama (porque todos estamos sós na noite, mesmo quando não dormimos sós), e levamo-nos, pairamos, fugimos. E naqueles sonhos acordados permitidos pela sociedade, os nossos mitos, a nossa arte, as nossas canções, celebramos aqueles que não pertencem ao grupo, os diferentes, os fora-da-lei, os excêntricos. Aquilo que proibimos a nós mesmos, pagamos bom dinheiro para admirar num teatro ou num cinema ou nas folhas de um livro. Nas nossas bibliotecas, livrarias ou locais de diversão fala-se verdade. O vadio, o assassino, o rebelde, o ladrão, o mutante, o banido, máscara. Senão o reconhecêssemos neles as necessidades que não podemos preencher, não os inventaríamos vezes e vezes sem conta, em cada sítio, em todas as línguas, em todos os tempos, a cada passo.
Assim que houve navios, corremos para o mar, atravessando oceanos em barquinhos de papel. Assim que houve automóveis, fizemo-nos à estrada. Assim que ouve aviões, voamos como setas até aos cantos mais remotos do planeta. Agora sonhamos com o lado escuro da lua, as planícies rochosas de Marte, os anéis de Saturno, as profundezas interestelares. Pomos em órbita fotógrafos mecânicos, ou mandamo-los em viagem sem regresso até às estrelas, comovemo-nos até às lágrimas com as maravilhas que eles transmitem. Sentimo-nos pequenos perante as grandiosas imagens de galáxias distantes que parecem sustentar as nuvens no céu, damos nomes a rochedos extraterrestres como se fossem animais e estimação. Procuramos a urdidura dos espaços, a demarcação dos limites do tempo. E é esta espécie que vive na ilusão de que gosta de ficar em casa, e de ter - como é que se diz? - Laços.
Esta é a minha opinião. Ninguém é obrigado a aceitá-la. Talvez não haja assim tanta gente como nós, ao fim e ao cabo. Talvez sejamos de facto desestabilizadores e anti-sociais e devêssemos ser proibidos. Todos temos direito às nossas opiniões. Eu só digo: durmam bem, queridos. Durmam bem e bons sonhos."



F.M.
Ouvinte e amante da IF desde 1987


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