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8.11.03

Blue's the colour of the sea #6  


© Shaun Lowe, Earth's Shadow, 03.08.2002


O mar está todo azul.
O mar está todo calmo.
No coração há quase um grito
de alegria.
E tudo está calmo.

Sandro Penna, “No brando rumor da vida”
Tradução de Maria Jorge Vilar de Figeiredo
© Assírio & Alvim


6.11.03

Na Cidade do Silêncio
Íntimos desabafos ao som de melodias vindas de países frios.

1 Um passeio no parque
A roda gira incessantemente, a cabeça toda desarrumada não dorme e anda às voltas e sai à noite até ser dia. Vive-se demasiado depressa, pensava, enquanto o rodopio de luzes que invadia os olhos me afastava de tudo, de ti.

2 Uma Tranquila Semana em Casa
Um caminho que percorro todos os dias, um regresso ao meu refúgio, sempre à procura da luz acesa, vista da janela da sala. A espera e os jornais, os olhos mortos postos num qualquer canal da televisão. Tu chegas e o amor entardece.


Post de Daniel M.





I opened up the pathway of the heart
The flowers died embittered from the start
That night I crossed the bridge of sighs
And I surrendered

I looked back and glimpsed the outline of a boy
His life of sorrows now collapsing into joy
And tonight the stars are all aligned
And I surrender

My mother cries beneath a southern sky
And I surrender
Recording angels And the poets of the night
Bring back the trophies of the battles that we fight
Searchlights fill the open skies And I surrender

Outrageous cries of love have called me back
Derailed the trains of thought, demolished wayward tracks
You tell me I've no need to wonder why I just surrender

I stand too close to see the sleight of hand
How she found this child inside the frightened man
Tonight I'm learning how to fly
And I surrender

I've travelled all this way for your embrace
Enraptured by the recognition on your face
Hold me now while my old life dies tonight
And I surrender

My mother cries beneath the open skies
And I surrender
An ancient evening just before the fall
The light in your eyes, the meaning of it all

Birds fly And fill the summer skies
And I surrender
She throws the burning books into the sea
Come find the meaning of the word inside of me

It's alright the stars are all aligned
And I surrender
My mother cries beneath the moonlit skies
And I surrender

My body turns to ashes in her hands
The disappearing world of footprints in the sand
Tell me now that this love will never die
And I'll surrender

My mother cries beneath the open skies
And I surrender




David Sylvian | I Surrender
Foto © Lello Coco Afiap
Post de Daniel M.

4.11.03

River Taw 


Da esquerda para a direita: River Taw, 16 July 1997; River Taw, 22 July 1997; River Taw, 19 January 1999

For her 'River Taw' series, Susan Derges abandoned traditional camera-based photographic techniques. At night she would place photographic paper directly into the river, then expose it with a quick burst of light from a flashbulb. Whatever was captured by the river's currents - leaves, twigs, ice - combined with shadows from above and the ripples of the water surface to create the final picture. 'The central metaphor for the work is immersion,' said Derges, 'with water being a representation both of the unconscious and of the body. It became quite a personal thing and I felt that the way the work was made had to reflect that.'

© eyestorm / Susan Derges


3.11.03

Azul aprisionado ? 

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2.11.03

A Sombra 

Tenho de ultrapassar a vontade de transcrever o livro todo (a Gótica não mo perdoaria), por isso termino esta leitura abreviada com um dos capítulos mais belo, sobre um outro livro também belíssimo e de estimação: “Elogio da Sombra”, de Junichiro Tanizaki (editado pela Relógio d’Água).

É o capítulo XV e como é extenso vou publicá-lo aos poucos…

A sombra

Em 1933 Tanizaki publicou um texto curto em que dizia que tinha saudades da sombra. Penso que estas páginas estão entre as mais belas de tudo o que foi escrito nas diferentes sociedades que surgiram no decurso dos tempos – sociedades que as diferentes línguas naturais fragmentaram na história geral deste mundo. Esta saudade era tanto mais pungente quanto era argumentada de maneira provocante. Tanizaki exprimia a saudade pelas latrinas quase obscuras do antigo Japão. Lugares que já não eram tolerados pelo conjunto da sociedade nipónica, subitamente ganha para a vontade geral de defecar à luz puritana, imperialista, americana, resplandecente dos néones, numa bacia de porcelana imaculada, rodeada de azulejos brancos, higiénica, brilhante, num cheiro fingido de flor.


Junichirô Tanizaki dizia que tinha saudades do pincel menos sonoro que a caneta;
dos objectos de metal manchados;
do cristal opaco e do jade turvo;
dos rastos de ferrugem nos tijolos;
do esboroamento das pinturas sobre madeira;
dos vestígios da intempérie;
do ramo quebrado, da ruga, da bainha desfeita, do seio pesado;
do dejecto de um pássaro na balaustrada;
do clarão insuficiente e fugaz de uma vela ao jantar ou do de uma lanterna suspensa sobre a porta de madeira;
do pensamento mais livre ou embotado ou vacilante que se eleva na cabeça humana quando esta se refugia na sombra, com a alma trazida à fronteira dos dentes;
a voz mais baixa e hesitante que acompanha o morrão do cigarro quando os olhos para ele se dirigem;
o gosto mais persistente do que é comido e a impressão menos obsessiva da forma e da cor dos alimentos à medida que se envelhece - o que se come ligando-se progressivamente à sombra do corpo em que se funde.

Na comida, o mais belo é o Perdido que nela reina incessantemente. O destino que persegue a presa que foi comida constitui a sua sombra.
Sentimo-la por todo o lado.
Estamos rodeados do seu perfume de morte, ou do perfume da sua morte, para lá do seu dejecto de espinha ou carcaça.

Um vómito apoderava-se de Junichirô Tanizaki perante a cintilação do aço;
do níquel;
do crómio;
da invenção do alumínio;
da brancura excessiva e ofuscante do papel vindo do Ocidente;
de qualquer porcelana, de qualquer vidro de óculo.

Amava a penumbra que o chá desenvolve no seu mundo quente e líquido.
E as cores que a pequena folha enrolada desdobra em filamentos na água antes de se misturar nela.
E o dejecto avermelhado e sob certos aspectos outonal que vem pouco a pouco jazer no fundo da taça de porcelana.

Amava a expectativa ligada às trevas e à imensidade flutuante que elas acrescentam.
Amava as vestes de belas cores escuras nos tons castanhos ou nos cinzentos.

Dizia que a densidade do pensamento no escuro estava extraordinariamente próxima da intensidade da excitação no constrangimento.
O constrangimento ao mesmo tempo invade
e apaga-se, deixando a alma e
invadindo
o corpo que se torna tenso.

Tinha saudades da arte, significando com isso o laço originário que a arte estabelecera com o artesanato manufacturado, ou seja, com o carácter único dos objectos que este acrescenta ao mundo.
Amava as taças sem brilho.
Amava os muros de areia.

Amava a escassez da luz sobre o corpo de uma mulher que só retira as roupas que lhe envolvem o ventre glabro e as tetas nuas para os confiar à penumbra; o seu cheiro é mais forte; a sua pela mais nua e mais macia; as suas feições, sendo mais fantasmáticas, são mais femininas; vem do passado; não está em desacordo com a escuridão do seu sexo que se entreabre e ela faz recordar que é a velha morada.

Não distinguia a sombra dos vestígios do passado. Tinha saudades do pó sobre as caixas, assim como da ferrugem nas facas, nos pregos, nos parafusos de cabeças achatadas.
Tinha saudades da lua como únca luz nocturna nas casas pobres;
dos bosques e dos seus animais assustadores;
da sombra apaixonante que se move e se esconde sob as calças e os vestidos;
de ouvir música espevitando os candeeiros.

A posição estética de Junichirô Tanizaki foi durante toda a sua vida decididamente antinaturalista. Nunca cedeu um palmo sobre o carácter enganador das percepções e das narrativas.
A linguagem é um mentir.
Chamavam a Plutão o rei da sombra.
O escritor é a linguagem que se devora a si mesma no homem devorado pelo mentir que constitui o seu núcleo.

Não há mentiroso que não cale o facto de mentir.
O romancista é o único mentiroso que não cala o facto de mentir.

O segredo é o único laço entre os indivíduos que, na sombra social, na penumbra sexual, se procuram, pois o que se pretende não dissimulado não passa de aparência.

Há no acto de ler uma expectativa que não procura a consumação. Ler é errar. A leitura é errância.
(Desconfiem dos cavaleiros errantes! Desconfiem dos romancistas!)
Cristiano de Troyes chamava ao grupo "Os que vão por estranhas terras as estranhas aventuras demandando".
(Desconfiem dos cavaleiros errantes! Procuram a aventura: a desgraça atrai-os.)

A mentira, a metamorfose, lutam sem fim contra o real, contra o estado das coisas, contra a venda dos homens, dos animais, dos objectos, contra as regras da linguagem e a tirania do papel de cada um no funcionamento dos grupos. Tanizaki considerava que a posição individual nocturna era o outro pólo da ordem nacional solar do Levante.

Falta-me juntar de seguida listas às listas que Tanizaki elaborava.
As listas de Li-Yi-chan e as de Marco Aurélio, mais cruas, mais indecorosas.
As listas de Sei Shônagon ou de Shafestbury, mais refinadas e puritanas.
As listas de "Memor", que são as da sombra que a vida, dia após dia, projectava.



Pascal Quignard
© Gótica

As sombras errantes 

Apetece-me dedicar todo este livro à Íntima Fracção. Apesar de Pascal Quignard falar de outras músicas que não as do programa do Francisco, a atmosfera é muitas vezes a mesma.

Por exemplo, no capítulo XXIV:

Conheço bem a aurora. Nunca a perdi. Mesmo num avião entreabro o pequeno estore de plástico, que a hospedeira mandou fechar, para espreitar, seja qual for a hora na deslocação circular e celeste, sei a hora do clarear.
Por detrás do clarear está o limiar incerto da Terra.
A aurora é para o dia o que a Primavera é para o ano, quer dizer, o que o bebé é para o morto.

A aurora estende um fumo de bruma sobre os rios e os lagos. É um véu que se entrepõe entre o Sol que se levanta e o seu reflexo, que se espalha na região do ar que o envolve. É o seu próprio calor que torna impossível vê-lo no instante do seu nascimento. Não conhecemos nunca o que começa no seu início. Qualquer causa em nós é recapitulada e fictícia.
Não conhecemos nunca o que acaba no instante do seu verdadeiro fim. Todo o adeus é uma palavra que queremos acreditar que conclui. Ora ela não começa nada e nada acaba.


© Gótica

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