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20.11.03

From the series: Night and Reality 



Yoshi Abe, Untitled #9, 2002

In the series "Night and Reality" Yoshi Abe evokes a minimalist landscapes, based on childhood memories, composed of stark outlines with suppressed details. For him these silent, empty enigmatic landscapes suggest myriad possibilities of actions or events to come.


© 2000-2003 Tepper Takayama Fine Arts

19.11.03

ouvir o horizonte 

São seis horas da manhã. Antonioni está num trigésimo sétimo andar sobre o Central Park, Nova Iorque. Está sentado junto à janela aberta a ouvir os sons. O seu belo rosto, de olhos fechados, concentrado, ainda mais belo assim tão perdido, como quem sonha. Por um momento Antonioni é um cego, absorto, que vê apenas para dentro, apenas com os ouvidos e vai descrevendo, um após outro, os sons, a dificuldade de os identificar, as sobreposições. Motores de automóveis, de aviões, comboios que passam, sirenes, mesas que caem sobre outras mesas, um assobio (como é possível?) e o vento, sempre o vento, em fortes rajadas. (Quantas histórias por detrás destes barulhos, quantos encontros, desencontros, fugas,…)
Até às oito e meia, quando o sol se levanta. Um dia claro e limpo. É inverno mas parece a primavera.

Uma viagem aos sons de Nova Iorque. Um texto para ler com os ouvidos, para desenhar com os ouvidos, não é Francisco?


De um trigésimo sétimo andar sobre o Central Park – banda sonora para um filme em Nova Iorque

Há um ruído de fundo contínuo, surdo, profundo: o trânsito. E um outro ruído menos contínuo: o vento. Chega às revoadas, mas nas pausas sinto-o soprar longe contra altos arranha-céus. A cada revoada corresponde uma oscilação do arranha-céus em que estou, cá em cima, e dou-me conta de uma sensação curiosa, como se o cérebro parasse por instantes.
Intermitente, uma sirene breve e débil. Duas buzinadelas. Um estrondo que se afasta, se aproxima, se dilui numa revoada imprevista, impaciente. Um eléctrico.
São seis da manhã.

Um outro estrondo vem juntar-se ao primeiro, sobrepõe-se-lhe. Uma leve explosão, muito ao longe. Volta o vento, sobe vindo do nada, parece expandir-se no ar parado, mas no entanto cessa. De novo um sinal de eléctrico. Não é um eléctrico, afinal, é um automóvel. Este dir-se-ia o de uma motocicleta mas de repente é um ruído diferente, não sei de quê. Um camião, um outro camião que acelera. Dois ou três automóveis que passam, tubos de escape como órgãos, sopros que se atenuam com grande mestria. Um instante de vazio absoluto que mete medo. Um autocarro pertíssimo, como se estivéssemos num segundo andar. Mas logo cai. Um guincho. Uma sirene de navio, demorada, melancólica. Já não há vento. A sirene continua. O ruído de fundo, por baixo da sirene. Um toque de sino enganado, que saíu mal. De igreja de aldeia. Mas talvez seja uma martelada no ferro, não um sino. Outra. Duas. Intervenção raivosa de um motor que acelera, rapidíssimo. A sirene continua, ao longe, num silêncio imprevisto. Sobrevém o eco daquele ruído metálico. Dir-se-ia que um autocarro muito ruidoso sobe até à janela. É um avião. Todos os ruídos se reforçam, as buzinas, a sirene, os camiões, e depois atenuam-se a pouco e pouco. Mas não, um outro estrondo e depois, de novo, a sirene, aguda. Fastidiosa embora sugestiva, faz com que se ouça o horizonte.
Seis e um quarto.

Todos os ruídos precedentes estão ali em bicha como num catálogo de amostras, nítidos. Breve parêntese. Permanece o ruído de fundo e a sirene, sempre. Uma buzinadela seca, distantíssima. Uma outra aqui por baixo, discreta. Um automóvel numa estrada distante, muito veloz, provavelmente europeu. O vento fustiga de vez em quando a parede aqui fora: uma revoada isolada imediatamente submersa pelo habitual camião mas mais como se grasnasse, seguido por um outro por sua vez mais compacto, motor novo, distinguem-se os tempos que se fundem um no outro. Mas não é um camião, é outro avião. Não, não é um avião, é um ruído que aumenta com prepotência e cai de repente sem se ter esclarecido. Fica a sirene, obsessiva, junta ao assobiar de alguém (como é possível?) subitamente interrompido por uma buzina raivosa. Ruído de mesas que caem sobre outras mesas. Nitidíssimo: uma roldana, o salto dos dentes. Mas não pode ser uma roldana, nem aquela nota contínua pode ser uma sirene. Outras mesas com ainda por cima qualquer coisa de metálico. É um golpe surdo apenas audível que no entanto deixa um eco nos ares. Uma espécie de nota musical tímida que termina repentinamente. Passagens de automóveis, um, outro, um terceiro… embora… Cruzam-se com outros carros, ruídos diversos. Um avião parece emergir de dentro de um arranha-céus. Tal como surgiu desaparece, repentinamente. Uma belíssima explosão de motores de automóvel, mesmo naquele instante. Passa e morre, reconhecível, satisfatório. Duas notas que tremem. Uma rajada de vento.
Seis e meia

Outras revoadas. Um regresso raivoso do vento passa por entre os arranha-céus, parece esquivar-se, irrompe arrogantemente sobre o parque. Uma buzina fá-lo calar como se lhe tivesse dado uma bofetada. Terminado o vento. Um tilintar no silêncio, há sempre aquela sirene um tom acima. Não eram sinos a dobrar, é o meu ouvido italiano que assim os define. As mesas: um golpe seco como uma rajada. Passagem de comboio, dir-se-ia o metro aéreo. Dobram sinos que a sirene prolonga. Brevíssimos. Um toque e acabou. Até os ruídos têm uma vida breve, nascem e morrem em poucos instantes. O ruído de fundo organiza-se, avança como um exército mimetizado, aproxima-se compacto, decidido a tudo, ou seja a dominar sem oposições. Está pertíssimo, distingue-se o vento, os carros, o avião, um ruído de ferros e a sirene que avançam decididos para o arranha-céus do hotel. Na cabeça está agora esta espécie de ruído de ferros, mas o avião ultrapassa-os, fica só. Nada. A batalha acabou. Pequena revolução enganada por uma buzinadela autoritária. Pontapés na madeira. Uma pausa. Outras pancadas. Arrastam mesas, não há dúvida. Parece uma metralhadora quase a encravar-se. Dispara contra os automóveis, que são obrigados a pararem. Uma outra sirene, mais verdadeira. O rolar contínuo de um carro, mas não é um carro, é o vento que retomou mais forte mas não suficientemente para cobrir o avião. Automóveis. Uma pancada que parece um canhão, sem eco. Esparsos aqui e além os ruídos metálicos espalhados por andares diferentes. Uma revoada raivosa, um camião raivoso, um elevador raivoso. Duas pancadas de tonalidade diferente. O ruído aumenta mas termina de repente como se se tivesse incrustado nas pancadas que retomam. Nascem outros ruídos nítidos que não conheço, uma buzina comprida, estupenda, que não morre, não morrerá nunca, já não sinto, mas deixou essa certeza. Ao contrário estes toques da sirene estão a morrer. De facto, uma revoada suprime-os, enquanto sobe verticalmente um camião. Mas logo cai, confundido com o vento. Uma espécie de campainha. Uma voz, a primeira voz.
Sete.

Um disparo da sirene, como para me fazer lembrar que lá continua mesmo sem eu a notar por ser tão persistente. Pneus que estalam. Uma explosão num túnel.
Oito e meia.

Levantou-se o sol mas os ruídos não mudaram. Apenas um se veio acrescentar, desagradável: perfuradoras que demolem um edifício. Estão longe mas de vez em quando o vento torna-as distintas. Os outros ruídos são os mesmos. Um assobio modulado, angustiante, que se repete como para anunciar qualquer coisa, um assobio com aspirações narrativas. Uma máquina ruidosa, não um carro, uma máquina não sei de que tipo, ruidosa, e, longe, as perfuradoras. Só que tudo ficou mais forte. Os rumores aumentaram com a luz. Até o vento, até os motores do automóvel. Até a sirene. Apenas as buzinadelas ficaram mais raras, revelando pessoas em regra com as normas da estrada, que apitam apenas se obrigadas a tal. Não têm dinheiro para perder com multas, e querem-se cumpridores, um pouco alemães. Vejo-os, neste ruído confuso, fundidos, o mesmo olhar atento à condução, os mesmos gestos, os mesmos filhos, a bordo dos seus automóveis lentos: um ruído que não tem coragem para explodir. Como um avião parado no ar, o ar limpo e claro deste primaveril Inverno.

FIM

Michelangelo Antonioni, ""O Perigoso fio das coisas"
tradução de Jorge Silva Melo, edição Difel


Glenn Branca, Symphony No.5 (1981), Describing Planes of an Expanding Hypersphere, First Movement

18.11.03

strange clouds 


© Pekka Parviainen

February 19, 2003: They hover on the edge of space. Thin, wispy clouds, glowing electric blue. Some scientists think they're seeded by space dust. Others suspect they're a telltale sign of global warming.

They're called noctilucent or "night-shining" clouds (NLCs). And whatever causes them, they're lovely....



qual seria o âmbito do céu? 



O céu é sempre sereno a sete mil, oito mil metros. Depois acaba o azul e começa o turquesa cada vez mais intenso. Pelos duzentos quilómetros, o céu é negro. Estrelas, galáxias, nebulosas, conjuntos, radiogaláxias distantes milhões de anos luz, gás e poeiras enchem-no quase completamente. Tudo nos foge numa velocidade louca. E não apenas a nós, uma vez que a recessão é isotrópica. Se esta recessão continua infinitamente quer dizer que o universo é aberto, infinito. Se termina um dia e muda de direcção, que é fechado, finito. Ou seja, que também o universo tem o seu horizonte dos acontecimentos. Com isto de especial, de ser o horizonte extremo, o horizonte de todos os horizontes para além do qual não há mais nenhum acontecimento, não há mais nada.
Também já se disse: mas se o homem devesse chegar para além daquilo que agarra, qual seria o âmbito do céu?

Michelangelo Antonioni, ""O Perigoso fio das coisas"
tradução de Jorge Silva Melo, edição Difel

Invented Landscape, 1972 



Manuel Alvarez Bravo


... como um sonho futuro e verdadeiro 

" O mais importante é o que não pode ser dito ainda; o essencial, o secreto, é o que se não nomeia. Dizer é a periferia; o centro é o silêncio. " J.Wiborg (86)
Há muito que somos o centro, mas não podemos abandonar a periferia. Tu permaneces no centro, mas há muito que geograficamente não o suportas. Eu passo entre os dois, num território que não permite o vagueio. E, no entanto, quem dera voltarmos a ser o rouxinol anónimo (ou talvez, finalmente, sê-lo !) (03) ... a própria noite que em silêncio brilha: a clara noite, como um sonho futuro e verdadeiro. (88)

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